14/12/2010

Montão de Histórias


"O primeiro homem a pisar na Lua foi Neil Armstrong, em 1969.
Uma lenda diz que um casal chegou a Montão de Trigo por volta de 1700. Sozinho no paraíso, o casal – como Adão e Eva – acabou descobrindo o pecado e gerando filhos.
Segundo a “Bíblia”, Adão e Eva foram os primeiros humanos a habitar a Terra.
Os filhos dos primeiros habitantes de Montão de Trigo casaram-se e também geraram filhos.
O casamento entre irmãos é condenado pela Igreja Católica.
Os filhos dos filhos – e, portanto, os netos – dos primeiros habitantes de Montão de Trigo também procriaram entre si. Depois, foi a vez dos bisnetos, tataranetos e assim por diante. Hoje, vivem em Montão 80 pessoas, todas com algum grau de parentesco.
São oito crianças, 12 idosos e 60 adultos. Todos condenados pela Igreja Católica.
Na Lua, há – entre centenas de objetos – uma “Bíblia”.
“Bíblia” é o livro sagrado da Igreja Católica. Nele, estão registradas a história de Adão e Eva e diversas condenações, como a união entre irmãos.
Na Lua, há também duas bolas de golfe, seis bandeiras americanas e uma placa, em que se lê: “Viemos em paz em nome de toda a humanidade”.
Em Montão, é mais complexo enumerar o que não há.
Porém, os habitantes da ilha possuem uma coisa que lhes parece inseparável: uma palavra quadrissílaba, paroxítona, terminada em “a”: “esperança”.
No meio da mata do monte, há um templo evangélico. Em Montão, moram apenas 11 famílias. Não há quitandas, farmácias, hospitais ou padarias. Mas parece que Deus já anda por lá.
De Montão, conseguimos ver a Lua. Da Lua, não se vê Montão."
Trecho do documentário "Montão de Histórias" sobre a ilha Montão de Trigo, de Guga Lemes.

29/11/2010

Bruta

Ordinária. Ordinária é uma palavra tão forte. Nunca deixaria que chamassem minha mãe de ordinária. Extraordinária, sim, é diferente. É incrível como o sentido das palavras muda. Duas sílabas a mais e você já fala o oposto.
A gente deveria tomar mais cuidado com aquilo que diz.
Da série "Pequenas Crônicas", de Guga Lemes.

16/11/2010

A Fábrica de Dorotéia


"A fábrica de Dorotéia vai fabricar todo tipo de gente. Pessoas gordas. Muitas pessoas gordas, principalmente mulheres. Mulheres obesas. A Inês vai ter tanta gordura que mal vai conseguir se locomover. Só vai se levantar daquela maldita poltrona para olhar pela janela e me ver andando com meu vestidinho preto. E de mãos dadas com o Osvaldo. Ela não pensa assim? Que marido e mulher têm de andar de mãos dadas? Pois, então, é assim que ela vai me ver. Não vai andar, mas me ver andando. Não vai dar as mãos, mas me ver de mãos dadas. Não vai usar biquíni, mas me ver usando. E a poltrona dela vai ser encardida. Suja. As pessoas não vão visitá-la por causa daquela maldita poltrona que ela vai ter. Afundada, com a marca do gigantesco quadril que eu vou dar a ela."
Trecho do monólogo "A Fábrica de Dorotéia", de Guga Lemes.

02/11/2010

Domingo

Reunir, vibrar, encher os olhos de lágrimas, sorrir, abraçar quem estiver ao lado, ficar quieto e depois gritar, até não sair mais a voz, ganhar, perder, levar na esportiva, ser mais um num coro gigante, ver o campo virar palco, ser platéia do espetáculo, ver milhares de olhos fitando um só lugar, ser um deles, ser eles, viver no plural, pensar “Como pode ela, tão pequena, ter tantos admiradores, justo ela, que não é de nenhum, que não torce para ninguém, foi ela receber a torcida de todos, ela, que pára um estádio, que faz a multidão virar silêncio, justo ela, que está aos pés de qualquer um”.
Ponto. Acaba aí a poesia. Pelo menos, para seu Alcir. Ele, que tem pé firme nas suas razões. Esta coisinha de domingo não passa de vadiagem, bobagem para esquecer a vida, que, não há jeito, é como ela é.
Da série contos pessoais.

25/10/2010

Vogais


Ó
É a
É o
É eu
É eu e a
Ou é a e o
Oi
Eu ia aí
E a ia ao o
Ei
E eu
Eu ó
Ai
Da série pessoal Poemas Mínimos.

22/10/2010

revolta

estou revoltado hoje pedindo a uma amiga que lesse em voz alta um antigo texto deparei-me com uma sem-ponto digo sem-ponto porque ao ler estava sugerindo outra interpretação às frases já que não conseguia ler corretamente a pontuação indicada quando coloco uma vírgula é porque peço uma certa pausa utilizo o ponto por um pedido de reflexão peço minhas sinceras desculpas ao leitor mas por causa de uma amiga que me irritou e muito pela manhã agora escrevo um texto sem pontos sem pontos vírgulas ou travessões só utilizei acentos em respeito aos gramáticos da língua mas teria todo o direito de não usá-los já que Laurinha além da pontuação trocou dúvida por duvida
Texto dedicado a uma querida amiga.

10/06/2010

Proporções

Um terço
Para quem leva, pouco
Para quem dá, demais

Um para dois
Metade
Dois para um
O dobro

E não há equação
Que resolva
Essa maldita
Desproporção

Da série pessoal Poemas Mínimos.

Ato


Um lapso
De repente
Um nome
Dito
Maldito
Seja o nome
Da série pessoal Poemas Mínimos.

A Cratera


Voltemos na linha do tempo 30 mil anos. Especificamente a um país que viria a se chamar Brasil. E a uma cidade que viria a se chamar São Paulo. Nessa data, caiu do céu um asteróide. Não havia casas ou prédios por lá. É possível que não existisse gente também. Mas havia ali, uma grande mata verde, onde viviam répteis, aves e mamíferos.

Foi uma destruição só. Não sobrou um pássaro para contar a história. No lugar, formou-se uma cratera de 36 mil metros de diâmetro.

De lá pra cá, o tempo passou depressa. E muita coisa mudou. Um homem chamado Jesus nasceu em Belém. Cabral descobriu o Brasil. Padre José de Anchieta fundou São Paulo. Novas religiões surgiram. O homem inventou a luz, o telefone, a televisão, o computador, a internet e a bomba. Novos habitantes surgiram. Milhões de pessoas nasceram. Em pouco tempo, a pequena vila de São Paulo se tornaria a maior cidade do Brasil e uma das mais ricas do mundo.

A cratera ganhou um nome. Recebeu também gente, casas, ruas e miséria. Muita miséria.
Cratera de Parelheiros. Um meteoro que teve mais impacto hoje do que há 30 mil anos.
Escrevi este texto no dia que visitei a Cratera de Parelheiros, há quase 10 anos. Infelizmente, ela continua lá, exatamente como conheci.

08/02/2010

Retratos de Ludovic

São clássicos os retratos de Ludovic Carème. O de Amodóvar é um dos meus preferidos. Veja mais no site: http://www.ludoviccareme.com/.

05/02/2010

As maquetes de Albanese



Um artista americano está ganhando a imprensa internacional. Matthew Albanese, de Nova Jérsei, começou fazer suas maquetes de paisagens há dois anos. Tudo com materiais como algodão, temperos, gesso e cimento. Depois, são os pequenos ambientes são fotografados e ganham profundidade, com seu olhar de fotógrafo.
Lembra o conceito visual utilizado por Vik Muniz, mas o resultado é bem diferente.
"Usando uma mistura de técnicas como escala, profundidade de campo, equilíbrio de cores e iluminação, consigo alterar drasticamente a aparência dos materiais que uso."
Veja o tornado feito de algodão.