30/03/2011

Desaparece.


Subjetiva de câmera de vigilância. Garoto dá recado para alguém, com muita raiva.

Garoto –
Tá funcionando?
Tá funcionando essa merda?
Cê tá ouvindo?
Então, escute bem, seu marginalzinho.
Escute bem porque só vou dizer uma vez.
Vê se some. Desaparece.
Se você me ver na rua, atravessa. Passa longe.
Porque é bom o seu caminho não cruzar com o meu.
Só de pensar no seu nome, o meu braço treme, ó, com sede de te dá na cara.
Desaparece, muleque.
Se não é eu que vou ter que te dá uma chá de sumiço.
Cê ta entendendo?
Não titubeia.
Me viu, sai correndo. Porque, da próxima vez, não vai ter aviso não.
Vai ter é pau.

Trecho do curta "Desaparece", de Guga Lemes.

23/03/2011

Nó.


Eram, talvez, duas da madrugada. Não. Não eram duas, porque eu tinha tirado o telefone do gancho às duas. E eu lembro bem de ter pensado “por que é que eu fui tirar o telefone do gancho? O que eu prefiro? Ele tocando escancaradamente ou fazendo esse piiiiiii insuportavelmente subliminar? O que irrita mais? O quanto mais eu aguento desse som falsamente discreto de telefone fora do ganho que mais parece alguém suplicando para eu colocar a porra do telefone no gancho?


Não importa. Era bem mais de duas. Eram, talvez, quatro. Não. Certamente, bem menos. Porque, quando a gente está diante de um telefone fora do gancho, o tempo, de fato, passa irritantemente mais devagar. O minuto se transforma em hora. E cada minuto dura sessenta vezes mais do que deveria durar.


Talvez fossem duas e quatro da manhã. E aqueles malditos quatro minutos se transformaram em longas horas da minha vida.


E eu sabia que no minuto em que eu colocasse o telefone no gancho, ele iria tocar. Só estava me preparando para não atender. Eu sabia que não devia atender. Então, agüentei aquelas longas horas de piiiiiii baixinho só para me concentrar naquilo que eu deveria fazer. Não atender o telefone, quando ele tocasse.

Início do texto "Nó", de Guga Lemes.

16/03/2011

Palavra.


Uma palavra. É o suficiente para esgotar uma vida. Quem sabe nem a palavra. Mas um pensamento. E justo ele, que tinha um pensamento tão antigo. Quando a palavra saía, pensavam: “É brincadeira ou verdade o que esse maluco está falando?”. Nelson nunca foi maluco. Também nunca brincou. Só era um pouco rígido. Um pouco, não. Bastante, é verdade. Mas não o bastante para acabar como acabou.

A família de Nelson vivia numa cidade pequena. Numa casa simples para o tempo de Nelson. Tinha sete filhas. Todas, mulheres. Eu costumava ser a do meio. Exatamente a do meio, entre as três mais velhas e as três mais novas. Tinha também a esposa, a serviçal e a cadela. Não que nenhuma das outras não pudesse ser a cadela também. Mas a cadela, em especial, era pequena e dócil, bem diferente das outras. 

Trecho da crônica "Palavra", de Guga Lemes.

02/03/2011

Ser Tão.


Sertão. Pura seca nordestina. Magros de grandes barrigas andam nus no horizonte. Sombras de dor. Sofrimento. Luz que castiga pobres fetos malcrescidos. Mulheres, de peitos murchos e já sem leite, carregam mais uma vez a morte no seu corpo, com a certeza de que nascerão para morrer. A mandioca esfarelada, farinha de terra seca, sustenta inúmeros filhos de única mãe. Homens esperam seu destino, caminhando como andarilhos. E expressam sua crença, carregando pesadas toras que, em forma de cruz e sem rumo, são levadas em cantorias desafinadas.

Sol que arde a pele e racha o chão da grande planície. Triste retrato mortal de imortais vidas no sertão.

Em meio a tantas lágrimas secas, que já não molham nem escorrem no relevo do rosto, está Jequitimbá. Cidade-poeira, de ponte sem rio. Casas de pau e barro retratam a velha cidade, construída com o suor de um único homem: João Minguela, homem morto lutando pela vida, vida marcada pela morte.

Trecho do conto "Ser Tão", de Guga Lemes. Imagem: quadro da série Retirantes Nordestinos, de Cândido Portinari.