12/01/2011

Ratos.

Ela se foi. Minha mãe se foi.

Mas...

Não fale nada agora, me abrace. Eu sabia que, um dia, isso iria acontecer.
Você sabe como os ratos morrem?

Não.

Lentamente. A gente dá a eles o veneno e os pobrezinhos vão se destruindo por dentro. Durante dias. Triste, não é?

Por que você está me dizendo isso?

Os ratos devem morrer porque fazem mal pra gente.

O que você quer dizer?

Engraçado. Mamãe morreu assim, coitada. Aos poucos. Que nem um rato. Em uma semana, ela se foi.
  
Eu vou embora daqui.

Não adianta. A gente vai seguir nosso caminho também.

Que cheiro é este?

Tanta gente morre de amor.

A chave. Cadê a chave, Lúcia?

Eu te amo, meu amor.

Me dá a chave,

Engraçado. Eu nunca te chamei de meu amor.

Que brincadeira é essa?

Você gosta?

Isto aqui é gás, não é? Está vazando gás.

Que eu te chame de meu amor?

Trecho do roteiro de curta-metragem "Ratos", de Guga Lemes.

04/01/2011

O dia em que Dorotéia resolveu contar uma história.

“Toma! Lê. Mas lê agora. É a introdução de uma peça. Que eu escrevi logo depois que saí daqui. E pensei: ‘É isso! Eu vou escrever uma peça’. Mas, antes que você leia, eu vou te contar o que você vai dizer depois. Você vai rir. Discretamente. E vai dizer: ‘É você! Fala, fala, mas não revela a história’. Eu já estou preparada pra isso. Trouxe um texto pronto. Você diz: ‘É você! Fala, fala, mas não revela a história’. E eu respondo: ‘Eu venho aqui há pouco tempo e você queria que eu trouxesse a minha história? Eu fiz melhor. Eu trouxe a sua. Mas é só a introdução’. Agora lê!” 
Trecho da peça "O Dia em que Dorotéia resolveu contar uma história", de Guga Lemes e Sá Osmann.