– Ela se foi. Minha mãe se foi.
– Mas...
– Não fale nada agora, me abrace. Eu sabia que, um dia, isso iria acontecer.
Você sabe como os ratos morrem?
– Não.
– Lentamente. A gente dá a eles o veneno e os pobrezinhos vão se destruindo por dentro. Durante dias. Triste, não é?
– Por que você está me dizendo isso?
– Os ratos devem morrer porque fazem mal pra gente.
– O que você quer dizer?
– Engraçado. Mamãe morreu assim, coitada. Aos poucos. Que nem um rato. Em uma semana, ela se foi.
– Eu vou embora daqui.
– Não adianta. A gente vai seguir nosso caminho também.
– Que cheiro é este?
– Tanta gente morre de amor.
– A chave. Cadê a chave, Lúcia?
– Eu te amo, meu amor.
– Me dá a chave,
– Engraçado. Eu nunca te chamei de meu amor.
– Que brincadeira é essa?
– Você gosta?
– Isto aqui é gás, não é? Está vazando gás.
– Que eu te chame de meu amor?
Trecho do roteiro de curta-metragem "Ratos", de Guga Lemes.
