Sertão. Pura seca nordestina. Magros de grandes barrigas andam nus no horizonte. Sombras de dor. Sofrimento. Luz que castiga pobres fetos malcrescidos. Mulheres, de peitos murchos e já sem leite, carregam mais uma vez a morte no seu corpo, com a certeza de que nascerão para morrer. A mandioca esfarelada, farinha de terra seca, sustenta inúmeros filhos de única mãe. Homens esperam seu destino, caminhando como andarilhos. E expressam sua crença, carregando pesadas toras que, em forma de cruz e sem rumo, são levadas em cantorias desafinadas.
Sol que arde a pele e racha o chão da grande planície. Triste retrato mortal de imortais vidas no sertão.
Em meio a tantas lágrimas secas, que já não molham nem escorrem no relevo do rosto, está Jequitimbá. Cidade-poeira, de ponte sem rio. Casas de pau e barro retratam a velha cidade, construída com o suor de um único homem: João Minguela, homem morto lutando pela vida, vida marcada pela morte.
Trecho do conto "Ser Tão", de Guga Lemes. Imagem: quadro da série Retirantes Nordestinos, de Cândido Portinari.


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