Eram, talvez, duas da madrugada. Não. Não eram duas, porque eu tinha tirado o telefone do gancho às duas. E eu lembro bem de ter pensado “por que é que eu fui tirar o telefone do gancho? O que eu prefiro? Ele tocando escancaradamente ou fazendo esse piiiiiii insuportavelmente subliminar? O que irrita mais? O quanto mais eu aguento desse som falsamente discreto de telefone fora do ganho que mais parece alguém suplicando para eu colocar a porra do telefone no gancho?
Talvez fossem duas e quatro da manhã. E aqueles malditos quatro minutos se transformaram em longas horas da minha vida.
E eu sabia que no minuto em que eu colocasse o telefone no gancho, ele iria tocar. Só estava me preparando para não atender. Eu sabia que não devia atender. Então, agüentei aquelas longas horas de piiiiiii baixinho só para me concentrar naquilo que eu deveria fazer. Não atender o telefone, quando ele tocasse.
Não importa. Era bem mais de duas. Eram, talvez, quatro. Não. Certamente, bem menos. Porque, quando a gente está diante de um telefone fora do gancho, o tempo, de fato, passa irritantemente mais devagar. O minuto se transforma em hora. E cada minuto dura sessenta vezes mais do que deveria durar.
Talvez fossem duas e quatro da manhã. E aqueles malditos quatro minutos se transformaram em longas horas da minha vida.
E eu sabia que no minuto em que eu colocasse o telefone no gancho, ele iria tocar. Só estava me preparando para não atender. Eu sabia que não devia atender. Então, agüentei aquelas longas horas de piiiiiii baixinho só para me concentrar naquilo que eu deveria fazer. Não atender o telefone, quando ele tocasse.
Início do texto "Nó", de Guga Lemes.


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